Carcassone

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Nesta página estão 13 fotos de Carcassone, França.

 

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No ano 122 antes de Cristo, os Romanos ocuparam as regiões da Provence e Languedoc, hoje partes da França. Aqui eles construíram uma fortificação, chamada de Carcasso, onde permaneceram até o século 5.

Vivendo num país tão jovem como o Brasil, é quase inevitável sentir um fascínio especial por coisas mais antigas (onde mais antigas neste caso significa, no mínimo, uns setecentos anos de idade...). Talvez aí resida o interesse e encanto que castelos e fortificações medievais sempre exerceram em nossas mentes.  Naquele ano fazíamos um giro pela França, e ao constatarmos no mapa que, na rota entre Toulouse e Montpellier iríamos passar bem próximos à mais bem conservada cidade medieval murada da Europa,  ela imediatamente entrou em nossos planos de visita. La Cité de Carcassone iria se transformar no ponto alto de nossas férias daquele ano.

Carcassone (veja uma vista aérea, na imagem acima ) é a cidade medieval murada mais bem preservada da Europa. Situada no sul da França, ela é o típico lugar que as pessoas só acreditam que ainda existe, quando chegam lá e vem por si mesmas. À medida que suas torres e sua grande muralha externa se tornavam visíveis e cada vez mais próximas, nossa emoção e espanto se tornavam cada vez maiores.  Era como se o passado tivesse surgido de repente, após uma curva da estrada e era difícil acreditar que algo coisa que julgávamos pertencer somente aos livros de história e filmes pudesse estar bem ali na nossa frente. Carcassone nos atraía como um ímã, e embasbacados, fascinados e quase mudos chegamos ao hotel, situado a poucos metros da grande muralha externa. 

 


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Era final de tarde quando chegamos. E após fazer o registro no hotel deixamos as coisas no quarto de qualquer maneira e saímos apressados, quase correndo, na direção da cidadela medieval. Porque tanta pressa não sabíamos dizer, pois certamente Carcassone não iria sair de lá, nem sumir com o cair da noite, mas de alguma forma sentíamos que aquele era um lugar tão especial que nenhum minuto poderia ser desperdiçado, nem um instante poderia ser jogado fora. Todo o tempo de nossa permanência naquele lugar deveria ser dedicado a conhecer, explorar, vivenciar e, se possível, até mesmo perder-se entre as muralhas e vielas daquela cidade medieval.

Dez minutos depois já estávamos cruzando a ponte levadiça que dá acesso à parte interna das muralhas. Abaixo, um gramado verde (veja a imagem ao lado) cobria o que presumimos ter sido no passado um fosso, destinado a proteger a cidade dos ataques de seus inimigos. E inimigos e ataques Carcassone teve diversos.

 

Começando pelas tribos gaulesas,  e depois romanos e mais tarde passando pelos visigodos, sarracenos, francos, diversos senhores feudais, e os reis da França, muitos povos contribuíram para o crescimento, fortalecimento e história de Carcassone.

A história de Carcassone está também muito ligada ao Catarismo, uma seita cristã politeísta, surgida na região de Languedoc, em fins do século XI. Os adeptos desta religião, conhecidos como Cátaros, tinham sua própria interpretação das leis divinas, muitas delas conflitantes com o que pregava a igreja católica. Além disso acreditavam que os homens não precisavam de intermediários para se dirigir à Deus, portanto não reconheciam a autoridade do Papa ou de seus bispos. Acreditavam também, entre diversas outras coisas, que os todas as pessoas vivas tinham como objetivo evoluir através da expiação de suas faltas, e que levando uma vida dedicada ao bem e progredindo sempre, o que seria atingido através de sucessivas encarnações, um dia teriam direito a chegar ao paraíso.

Isto tudo foi um pouco demais para a igreja católica, que perdeu a paciência, declarou que os moradores de Carcassone eram todos herejes e decidiu dar um basta àquela história toda, convocando os cruzados para invadir a cidadela, acabar com os Cátaros e dar um fim àquela doutrina.

 

Raymond Roger Trencavel, o senhor de Carcassone, simpatizava com a doutrina Cathar, e ofereceu refúgio para os praticantes desta religião em sua cidade.

Seguindo a ordem Papal, foi organizado um exército de cruzados, que se dirigiram a Carcassone, tomaram e invadiram a cidade. Conta-se que cátaros guardavam, entre seus mais preciosos bens, o cálice que Jesus teria usado na última ceia, conhecido como Santo Graal, e que antes da cidade ser invadida pelos cruzados, alguns Cátaros conseguiram escapar, levando com eles o Santo Graal.

Após invadir Carcassone, os cruzados tinham ordem de impor aos cátaros o catolicismo. No entanto, praticamente todos se recusaram a abandonar sua fé e foram condenados à morte na fogueira.  Mesmo assim as idéias religiosas dos cátaros não desapareceram, como pretendiam os cruzados, e muitos de seus conceitos de fé podem ser encontrados atualmente em outras religiões, como aquelas difundidas por Allan Kardec em seus livros espíritas.

 

Conhecendo alguns dos eventos históricos ocorridos em Carcassone torna-se ainda mais emocionante chegar à base de suas muralhas, e é inevitável imaginar este mesmo local há 900 anos atrás, ocupado por cavaleiros armados com espadas e catapultas, tentando escalar as altas muralhas ou transpor o fosso enquanto os defensores lutavam desesperadamente para repelir os invasores, sabendo que suas vidas dependiam disso.

A imagem ao lado mostra um  trecho entre as muralhas internas e externas, que fazem o contorno completo da cidade. Este perímetro tem cerca de dois quilômetros e é uma boa sugestão para iniciar sua visita à cidadela. Caminhando por ali não vemos quase movimento, e é uma boa forma de poder sentir o tamanho de Carcassone. Fazendo este contorno encontra-se diversas passagens, rampas, torres de guarda, e se tem uma ótima noção do tamanho e características da cidadela medieval.


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Veja um vídeo que gravamos percorrendo a Parte Externa de Carcassone.

Durante este período de prosperidade surgiu a religião Cathar, que negava o catolicismo. Seus seguidores eram considerados pelo Papa como heréticos e profanos.

Depois de circular toda a cidade pelo trecho entre as muralhas, voltamos à sua entrada principal, que é feita por uma ponte levadiça e coberta. Nós fomos para lá na mesma tarde que chegamos, passamos o dia seguinte inteiro percorrendo a cidade,e no terceiro dia ainda voltamos ao local mais uma vez, antes de partir, e mesmo assim não deu para ver tudo.

Entre os pontos mais visitados de Carcassone estão o Portão de Narbonne, a Torre da Justiça, e a Torre da Inquisição. Não deixe de conhecer o castelo, construído no ano 1130. E inclua também em seu roteiro o museu arqueológico, onde estão guardadas relíquias dos séculos 12 e 14. Veja ainda a Basílica de Saint Nazaré (imagem ao lado) e a torre da prisão.

Nem tudo é perfeito, e nossa maior decepção em Carcassone foi, logo ao cruzarmos o portão de entrada, quando ouvimos um bip-bip atrás da gente. Sim, em Carcassone circulam automóveis. Poucos, é verdade, somente aqueles pertencentes à moradores e que atendem ao comércio interno, mas mesmo assim, eles são demais. Poucas coisas são tão incompatíveis quanto automóveis e cidades medievais.

 

Depois de atravessar o grande portão de entrada tem-se acesso à parte interna da cidade. A principal via de acesso, que segue rumo à praça central é ladeada por lojinhas destinadas ao turismo. Artesanato, louças, roupas, postais, miniaturas de cavaleiros medievais, símbolos templários, reproduções de espadas, crepes, sorvetes etc etc. O preço que Carcassone tem que pagar para continuar viva é agradar aos turistas e oferecer o que eles desejam. E turistas Carcassone tem muitos, sempre, à procura de lembranças de todo o tipo.

Além de lembranças, turistas sempre querem comer. E neste ponto Carcassone também está bem servida. Principalmente em torno da pracinha central (imagem ao lado), existem diversos restaurantes com mesas ao ar livre. Na verdade Carcassone tem uma estrutura turística muito completa, com livrarias, lojas diversas e até mesmo hotéis, fazendo dela uma cidade praticamente normal, com um visual completamente diferente.

O Papa Inocêncio III, que não via com bons olhos o crescimento da religião Cathar, organizou em 1209 uma cruzada para acabar com aqueles infiéis. Carcassone foi atacada, e após ficar sitiada durante dois anos, foi tomada.

Veja um vídeo que gravamos percorrendo a Parte Interna de Carcassone.

Após o fim do Chamado País Cathar de Carcassone a cidade se tornou uma fortaleza sob o controle dos reis da França, Luis IX, Philippe le Hardi e Philippe o Belo. Foi neste período que Carcassone assumiu sua aparência atual.

A parte mais antiga de Carcassone foi construída no século 9, sendo depois aumentada nos séculos XII e XIII. Foi o rei francês Luis IX, da dinastia dos Capetinos e que entraria para a história com o nome de São Luis, que em 1240 teve a idéia de construir uma segunda linha de muralhas em torno de toda a cidade, pois assim eventuais atacantes precisariam romper duas  barreiras em vez de apenas uma. A eficiência desta defesa foi tão grande que durante a guerra dos cem anos com a Inglaterra, quando os Ingleses chegaram até o sul da França, eles conseguiram atear fogo à torre mais baixa de Carcassone, mas não conseguiram realizar seu intento principal, que era entrar e dominar a cidadela.

Após tantos séculos suportando combates, guerras, cercos, cavaleiros cruzados Carcassone foi praticamente abandonada. Ela não tinha mais importância militar nem política. A cidade baixa, situada logo do outro lado do rio (também chamada Carcassone), ganhava importância à medida que a cidade medieval (Cité de Carcassone) perdia.

Somente a partir do século XIX começou a surgir a consciência a respeito da importância da preservação dos lugares históricos do país, dentre eles Carcassone. A cidade, completamente arruinada acontecem as primeiras restaurações, da qual participaram nomes famosos como Prosper Mérimée e Eugène Viollet-le-Duc.

 

Os trabalhos de restauração em Carcassone duram mais de 50 anos, durante os quais são feitas diversas expropriações e removidas habitações temporárias construídas irregularmente. Assentamentos internos e externos são removidos e seus moradores são transferidos para outros locais. Ao mesmo tempo são pesquisados registros históricos diversos, tentando restaurar a cidade de forma a deixá-la o mais próximo possível do esplendor que ela teve durante o século XIII. Enquanto isso, polêmicas são criadas questionando os critérios adotados durante os trabalhos de restauração,  particularmente algumas idéias de Eugène Viollet-le-Duc, como os telhados pontiagudos colocados sobre as torres, o que, no entender de alguns historiadores, não eram habituais no século XIII. Mesmo assim, os trabalhos de restauração chegam ao fim com sucesso, e devolvem à Carcassone sua beleza e grandiosidade original.

Uma das visitas mais interessantes da cidade é o Museu da Inquisição, onde estão à mostra instrumentos de tortura de todas as partes da Europa Medieval.

 

Quando chega a noite Carcassone se transforma, e assume um aspecto ainda mais dramático. Suas ruelas escuras, o calçamento de pedra, rampas e torres que conduzem a lugares desconhecidos, portinhas estreitas, janelas semi iluminadas, arcos, portais, luzes e sombras criam uma atmosfera mágica e são um convite à exploração.

Se você foi para seu hotel antes do anoitecer para descansar um pouco tudo bem, mas não deixe de voltar à cidadela antes do final do dia. E ao chegar novamente aqui procure por uma passagem, siga por uma ruela, desça aquela rampa, explore aquela torre, e quando encontrar aquele pequeno restaurante muito especial e uma mesinha redonda iluminada por uma vela, que parece estar ali esperando por você não hesite. Dê um sorriso, cumprimente o garçon, entre, sente, olhe o menu com calma, escolha qualquer coisa, quem sabe uma taça de vinho para dar aquele clima, e simplesmente curta cada minuto, sabendo que aquele momento ficará em sua memória para sempre.

 

O feriado nacional do 14 de julho é comemorado em Carcassone com muitos fogos de artifício, que iluminam os céus sobre a cidade com as cores nacionais francesas. Não estivemos lá nesta época (nossa visita foi em setembro) mas se você estiver percorrendo o sul da França nesta época fica aqui a dica para um espetáculo muito bonito. E se tiver dificuldades em se hospedar nos hotéis situados junto à Cité de Carcassone lembre que existem muitas outras opções de hospedagem na Ville de Carcassone, esta última uma cidade normal (conhecida também por Cidade Baixa) situada em frente à cidadela, na outra margem do rio l'Aude.

 

Carcassone está aberta à visitação todos os dias do ano, com exceção dos dias de Natal, Ano Novo, 1 de maio e 1 e 11 de novembro.

A chegada do turismo, a partir do início do século XX, seria o impulso definitivo para transformar Carcassone num local não somente histórico mas também famoso em todo o pais e mesmo pelo mundo afora.

Carcassone está situada ao no sul da França, entre as cidades de Toulouse e Montpellier. A autoestrada A61 passa bem pertinho do acesso à cidade e se você estiver percorrendo aquela região esteja certo que vale a pena ir até lá, pois este é um daqueles lugares únicos, marcantes, fascinantes e totalmente inesquecíveis.

 

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  A música desta página é La Citadelle, canção medieval francesa. Para interromper sua execução clique em X (parar).  


Representação de Cavaleiro Cátaro, habitante de Carcassone durante o século XI.