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Vivendo num país tão jovem
como o Brasil, é quase inevitável sentir um fascínio especial por
coisas mais antigas (onde mais antigas neste caso significa, no
mínimo, uns setecentos anos de idade...). Talvez aí resida o
interesse e encanto que castelos e fortificações medievais sempre
exerceram em nossas mentes. Naquele ano fazíamos um giro pela
França, e ao constatarmos no mapa que, na rota entre Toulouse e
Montpellier iríamos passar bem próximos à mais bem conservada cidade
medieval murada da Europa, ela imediatamente entrou em nossos
planos de visita. La Cité de Carcassone iria se transformar no ponto
alto de nossas férias daquele ano.
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Carcassone (veja uma vista
aérea, na imagem acima ) é a cidade medieval murada mais bem
preservada da Europa. Situada no sul da França, ela é o típico lugar
que as pessoas só acreditam que ainda existe, quando chegam lá e
vem por si mesmas. À medida que suas torres e sua grande muralha
externa se tornavam visíveis e cada vez mais próximas, nossa emoção
e espanto se tornavam cada vez maiores. Era como se o passado
tivesse surgido de repente, após uma curva da estrada e era difícil
acreditar que algo coisa que julgávamos pertencer somente aos livros
de história e filmes pudesse estar bem ali na nossa frente.
Carcassone nos atraía como um ímã, e embasbacados, fascinados e
quase mudos chegamos ao hotel, situado a poucos metros da grande
muralha externa.
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Era final de tarde quando
chegamos. E após fazer o registro no hotel deixamos as coisas no
quarto de qualquer maneira e saímos apressados, quase correndo, na
direção da cidadela medieval. Porque tanta pressa não sabíamos
dizer, pois certamente Carcassone não iria sair de lá, nem sumir com
o cair da noite, mas de alguma forma sentíamos que aquele era um
lugar tão especial que nenhum minuto poderia ser desperdiçado, nem
um instante poderia ser jogado fora. Todo o tempo de nossa
permanência naquele lugar deveria ser dedicado a conhecer, explorar,
vivenciar e, se possível, até mesmo perder-se entre as muralhas e
vielas daquela cidade medieval.
Dez minutos depois já
estávamos cruzando a ponte levadiça que dá acesso à parte interna
das muralhas. Abaixo, um gramado verde (veja a imagem ao lado)
cobria o que presumimos ter sido no passado um fosso, destinado a
proteger a cidade dos ataques de seus inimigos. E inimigos e ataques
Carcassone teve diversos.
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Começando pelas tribos
gaulesas, e depois romanos e mais tarde passando pelos visigodos,
sarracenos, francos, diversos senhores feudais, e os reis da
França, muitos povos contribuíram para o crescimento, fortalecimento
e história de Carcassone.
A história de Carcassone está
também muito ligada ao Catarismo, uma seita cristã politeísta,
surgida na região de Languedoc, em fins do século XI. Os adeptos
desta religião, conhecidos como Cátaros, tinham sua própria
interpretação das leis divinas, muitas delas conflitantes com o que
pregava a igreja católica. Além disso acreditavam que os homens não
precisavam de intermediários para se dirigir à Deus, portanto não
reconheciam a autoridade do Papa ou de seus bispos. Acreditavam
também, entre diversas outras coisas, que os todas as pessoas vivas
tinham como objetivo evoluir através da expiação de suas faltas, e
que levando uma vida dedicada ao bem e progredindo sempre, o que
seria atingido através de sucessivas encarnações, um dia teriam
direito a chegar ao paraíso.
Isto tudo foi um pouco demais
para a igreja católica, que perdeu a paciência, declarou que os
moradores de Carcassone eram todos herejes e decidiu dar um basta
àquela história toda, convocando os cruzados para invadir a
cidadela, acabar com os Cátaros e dar um fim àquela doutrina.
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Seguindo a ordem Papal, foi
organizado um exército de cruzados, que se dirigiram a Carcassone,
tomaram e invadiram a cidade. Conta-se que cátaros guardavam, entre
seus mais preciosos bens, o cálice que Jesus teria usado na última
ceia, conhecido como Santo Graal, e que antes da cidade ser invadida
pelos cruzados, alguns Cátaros conseguiram escapar, levando com eles
o Santo Graal.
Após invadir Carcassone, os
cruzados tinham ordem de impor aos cátaros o catolicismo. No
entanto, praticamente todos se recusaram a abandonar sua fé e foram
condenados à morte na fogueira. Mesmo assim as idéias
religiosas dos cátaros não desapareceram, como pretendiam os
cruzados, e muitos de seus conceitos de fé podem ser encontrados
atualmente em outras religiões, como aquelas difundidas por Allan
Kardec em seus livros espíritas.
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Conhecendo alguns dos eventos
históricos ocorridos em Carcassone torna-se ainda mais emocionante
chegar à base de suas muralhas, e é inevitável imaginar este mesmo
local há 900 anos atrás, ocupado por cavaleiros armados com espadas
e catapultas, tentando escalar as altas muralhas ou transpor o fosso
enquanto os defensores lutavam desesperadamente para repelir os
invasores, sabendo que suas vidas dependiam disso.
A imagem ao lado mostra um trecho
entre as muralhas internas e externas, que fazem o contorno
completo da cidade. Este perímetro tem cerca de dois quilômetros e é
uma boa sugestão para iniciar sua visita à cidadela. Caminhando por ali
não vemos quase movimento, e é uma boa forma de poder sentir o tamanho
de Carcassone. Fazendo este contorno encontra-se diversas passagens, rampas,
torres de guarda, e se tem uma ótima noção do tamanho e
características da cidadela
medieval.
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resolução.
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Veja um vídeo que gravamos
percorrendo a
Parte
Externa de Carcassone.
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Depois de circular toda a cidade pelo trecho entre
as muralhas, voltamos à sua entrada principal, que é feita por uma
ponte levadiça e coberta. Nós fomos para lá na mesma tarde que
chegamos, passamos o dia seguinte inteiro percorrendo a cidade,e no
terceiro dia ainda voltamos ao local mais uma vez, antes de partir,
e mesmo assim não deu para ver tudo.
Entre os pontos mais visitados
de Carcassone estão o Portão de Narbonne, a Torre da Justiça, e a
Torre da Inquisição. Não deixe de conhecer o castelo, construído no
ano 1130. E inclua também em seu roteiro o museu arqueológico, onde
estão guardadas relíquias dos séculos 12 e 14. Veja ainda a Basílica
de Saint Nazaré (imagem ao lado) e a torre da prisão.
Nem tudo é perfeito, e nossa
maior decepção em Carcassone foi, logo ao cruzarmos o portão de
entrada, quando ouvimos um bip-bip atrás da gente. Sim, em
Carcassone circulam automóveis. Poucos, é verdade, somente aqueles
pertencentes à moradores e que atendem ao comércio interno, mas
mesmo assim, eles são demais. Poucas coisas são tão incompatíveis
quanto automóveis e cidades medievais.
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Depois de atravessar o grande
portão de entrada tem-se acesso à parte interna da cidade. A
principal via de acesso, que segue rumo à praça central é ladeada
por lojinhas destinadas ao turismo. Artesanato, louças, roupas,
postais, miniaturas de cavaleiros medievais, símbolos templários,
reproduções de espadas, crepes, sorvetes etc etc. O preço que
Carcassone tem que pagar para continuar viva é agradar aos turistas
e oferecer o que eles desejam. E turistas Carcassone tem muitos,
sempre, à procura de lembranças de todo o tipo.
Além de lembranças, turistas
sempre querem comer. E neste ponto Carcassone também está bem
servida. Principalmente em torno da pracinha central (imagem ao
lado), existem diversos restaurantes com mesas ao ar livre. Na
verdade Carcassone tem uma estrutura turística muito completa, com livrarias,
lojas diversas e até mesmo hotéis, fazendo dela uma cidade
praticamente normal, com um visual completamente diferente.
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Veja um vídeo que gravamos
percorrendo a
Parte
Interna de Carcassone.
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A parte mais antiga de Carcassone foi construída
no século 9, sendo depois aumentada nos séculos XII e XIII. Foi o
rei francês Luis IX, da dinastia dos Capetinos e que entraria para a
história com o nome de São Luis, que em 1240 teve a idéia de construir
uma segunda linha de muralhas em torno de toda a cidade, pois assim
eventuais atacantes precisariam romper duas barreiras em vez de
apenas uma. A eficiência desta defesa foi tão grande que durante
a guerra dos cem anos com a Inglaterra, quando os Ingleses chegaram
até o sul da França, eles conseguiram atear fogo à torre mais baixa
de Carcassone, mas não conseguiram realizar seu intento principal,
que era entrar e dominar a cidadela.
Após tantos séculos suportando
combates, guerras, cercos, cavaleiros cruzados Carcassone foi
praticamente abandonada. Ela não tinha mais importância militar nem
política. A cidade baixa, situada logo do outro lado do rio (também
chamada Carcassone), ganhava importância à medida que a cidade
medieval (Cité de Carcassone) perdia.
Somente a partir do século XIX
começou a surgir a consciência a respeito da importância da
preservação dos lugares históricos do país, dentre eles Carcassone.
A cidade, completamente arruinada acontecem as primeiras
restaurações, da qual participaram nomes famosos como Prosper
Mérimée e Eugène Viollet-le-Duc.
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Os trabalhos de restauração em
Carcassone duram mais de 50 anos, durante os quais são feitas
diversas expropriações e removidas habitações temporárias
construídas irregularmente. Assentamentos internos e externos são
removidos e seus moradores são transferidos para outros locais. Ao
mesmo tempo são pesquisados registros históricos diversos, tentando
restaurar a cidade de forma a deixá-la o mais próximo possível do
esplendor que ela teve durante o século XIII. Enquanto isso,
polêmicas são criadas questionando os critérios adotados durante os
trabalhos de restauração, particularmente algumas idéias de
Eugène Viollet-le-Duc, como os telhados pontiagudos colocados sobre
as torres, o que, no entender de alguns historiadores, não eram
habituais no século XIII. Mesmo assim, os trabalhos de restauração
chegam ao fim com sucesso, e devolvem à Carcassone sua beleza e
grandiosidade original.
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Quando chega a noite
Carcassone se transforma, e assume um aspecto ainda mais dramático.
Suas ruelas escuras, o calçamento de pedra, rampas e torres que
conduzem a lugares desconhecidos, portinhas estreitas, janelas semi
iluminadas, arcos, portais, luzes e sombras criam uma atmosfera
mágica e são um convite à exploração.
Se você foi para seu hotel
antes do anoitecer para descansar um pouco tudo bem, mas não deixe de voltar
à cidadela antes do final do dia. E ao chegar novamente aqui procure
por uma passagem, siga por uma ruela, desça aquela rampa, explore
aquela torre, e quando encontrar aquele pequeno restaurante muito
especial e uma mesinha redonda iluminada por uma vela, que parece
estar ali esperando por você não hesite. Dê um sorriso, cumprimente o
garçon, entre, sente, olhe o menu com calma, escolha qualquer coisa,
quem sabe uma taça de vinho para dar aquele clima, e simplesmente
curta cada minuto, sabendo que aquele momento ficará em sua memória
para sempre.
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O feriado nacional do 14 de
julho é comemorado em Carcassone com muitos fogos de artifício, que
iluminam os céus sobre a cidade com as cores nacionais francesas.
Não estivemos lá nesta época (nossa visita foi em setembro) mas se
você estiver percorrendo o sul da França nesta época fica aqui a
dica para um espetáculo muito bonito. E se tiver dificuldades em se
hospedar nos hotéis situados junto à Cité de Carcassone
lembre que existem muitas outras opções de hospedagem na Ville de
Carcassone, esta última uma cidade normal (conhecida também por
Cidade Baixa) situada em frente à cidadela, na outra margem do rio
l'Aude.
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A chegada do turismo, a partir
do início do século XX, seria o impulso definitivo para transformar
Carcassone num local não somente histórico mas também famoso em todo
o pais e mesmo pelo mundo afora.
Carcassone está situada ao no
sul da França, entre as cidades de Toulouse e Montpellier. A
autoestrada A61 passa bem pertinho do acesso à cidade e se você
estiver percorrendo aquela região esteja certo que vale a pena ir
até lá, pois este é um daqueles lugares únicos, marcantes,
fascinantes e totalmente inesquecíveis.
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A música desta página é La Citadelle,
canção medieval francesa. Para
interromper sua execução clique em X (parar).

Representação de Cavaleiro Cátaro, habitante
de Carcassone durante o século XI.
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